Sexta-feira, Junho 10, 2011

Dos caminhos encontrados

A vida, com certo intuito de driblar uma corriqueira amargura, e num processo automático de equilíbrio, às vezes encontra inusitados caminhos. E podes rir, leitor, mas já lhe advirto, há de acontecer contigo, e não falo de maldade: caí. Foi um destes tombos abissais, destes de deixar envergonhado o maior dos sem-vergonhas – e não, não o sou.
Caminhava assim – disperso, olhando pro alto. Visava recém construído e esplendoroso prédio aqui do bairro. E, fruto disto, não percebi, ali pelo chão, o benéfico plano da existência que sucedia: destemida pedrinha de rua resolvera, assim como quem não quer nada, levantar um tantinho, somente um tantinho – o necessário.
Tropiquei como um bobo, um pateta, um tolo, um boboca – escolha. Então, ali, logo em frente, no ponto de ônibus, ninguém ousou segurar gargalhada. Riu a velhinha de bengala, que levava lacrimosa neta ao colo e, por decorrência, também riu a tal netinha; riu um senhor que tinha cara de mal-humorado e riu um real mal-humorado; riu o cansado motorista de ônibus que chegava por lá e também um desesperançoso moleque vendedor de guloseimas.
Por fim, notei, bem como, não sei se pelo fato de ter batido cabeça ao chão, e vindo dos lados da tal pedrinha, uma contida e satisfeita risada. Pois sim, a vida acaba, em momento ou outro, encontrando estranhos e efetivos amenizadores dos males. E não, não penses tu, leitor, que não terás teu dia, tua hora, teu inevitável momento de distraído benfeitor também.

Quinta-feira, Abril 21, 2011

Tempos de crise

Com a grandiosa crise econômica que insiste em rodear a Terrinha aqui, muitos já optam por opções inusitadas para aliviar dispendioso lamento. Em certa redondeza, por exemplo,famoso morcego, no intuito de achar uns trocados, e com imensa tristeza, acabou por penhorar seu famoso automóvel. Pois sim, fruto de tamanho tormento financeiro, o tal tem sido visto por aí andando com o que chamam Batcicleta, Batmagrela, algo do gênero. Boatos ainda relatam que o suposto affair do Morcegão, certa Batgirl, também apunhalada pela lamentável situação mundial, tenta driblar a crise tirando algum nas esquinas da caverna do namorado. Segundo contam, a máscara da rapariga, se cabe dizer assim, vem fazendo demasiado sucesso no ramo de fantasias.

Quarta-feira, Janeiro 05, 2011

Do atraso


Atraso, leitor, atraso. Contudo, não o faço por má vontade, tampouco maldade, ou malandragem. Tardo fruto duma estranha conspiração universal que sempre me bate porta, a qual tu também já deves ter certa ciência. Aquela tal que costuma atacar as gentes que fielmente cumprem seus horários, assim, com todas as boas intenções.
Pois sim, e tal cabala costuma prestar visita sem prévio aviso: sapato que se esconde quando se está pra sair, chave que emperra na porta, camisa que repentinamente se rasga, lente de contato que some pelo chão, entendes? E, noutras vezes, quase absurdamente, é o ônibus que lhe ignora, um raivoso cão que lhe tranca caminho, um despertador que não apita. Sim, tu já deves ter passado por tais bocados, ou não?
Ainda há o cobertor que lhe segura, trânsito que subitamente emperra, rua que alaga, carteira que some,  até mesmo um vendedor que na hora da saída surge. Elementos que, de uma forma ou outra, guiados pela tal conspiração, acabam fazendo com que atrasemos nossas ações. Este texto, por exemplo, já deveria ter sido escrito há muito, sem atraso algum, mas tu nem imaginas o que me aconteceu...

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

Das ilustres figuras da rede

Fruto do copioso sucesso das redes sociais, ilustres figuras também têm sido encontradas no meio virtual.  Recentemente, para surpresa geral, quem deu as caras, fazendo jus ao conhecido espírito avançado, foi o até então sumido Nostradamus.

 Ostentando um inusitado perfil na rede de relacionamentos Orkut, e em breves linhas, o cidadão expõe um pouco de suas características. “Sou um cara bacana, mas com a cabeça frequentemente distante. Penso muito no futuro, por vezes até em demasia”, pondera.

 Em suas comunidades, não menos curiosas, destacam-se elementos como “Yes, eu prevejo o futuro”, “Quem avisa amigo é”, e a popularíssima “Eu já sabia”. Parece que a figura passeia também pelo badalado Twitter, onde, com boa constância, costuma postar dicas sobre as loterias semanais.

Sexta-feira, Outubro 29, 2010

Da falta de grana

 Pois ando tão desprovido de dinheiro que ando fazendo de tudo pra arranjar algum. Tempos atrás, precisei vender meu cachorro: vira-latas magrinho, que somente conseguia viver porque se alimentava das próprias pulgas. Com ajeitadinha ou outra, e usando artifícios de maquiagem aqui e ali, negociei-o passando-se por um suntuoso dálmata, noutra cidade, bem distante daqui, intuito de evitar futuras confusões quando dum primeiro banho. Infelizmente, a grana do cusco foi velozmente gasta num encontro que tive com uma simpática rapariga que esperava ônibus na esquina da rodoviária daquela cidade. Simpaticíssima, amabilíssima, caríssima.
 
Fruto daquele rápido amor repentino, obriguei-me a ir novamente atrás de grana – vendi minha avó. Fazendo uso da internet de um camarada, num acordo com a remota, que buscava novos ares, negociei-a num leilão virtual, dividindo o montante em partes iguais. Os cento e cinquenta anos da mocinha chamaram enorme atenção de um museu londrino, que ofertou razoavelmente bem para expor a raridade por lá. Todavia, o dinheiro da antiga também não perdurou muito. Deste modo, desfiz-me também do apartamento, que nem meu era. O dinheiro da venda, depois que consegui fugir do síndico e do dono, decidi aplicar em ações.

Minha primeira ação foi comprar comida, o que não via há muito. O resto foi investido em barracas - uma, na verdade. Não podia ficar na rua.  Barraca até bem espaçosa, quatro quartos, porque assim acabou sendo necessário. Para minha pouca fortuna, recebera carta da antiga dizendo não ter tido total apreço pelo clima londrino e que o museu achara mulher mais velha ainda para o seu acervo, o que nunca acreditei; e desde modo, retornando muito em breve, precisaria de morada.

Outro quarto, com vista para uma churrasqueira giratória, e para reparar a maldade inicial, reservei para o falso dálmata. O tal, coincidentemente ou não, depois de um final de semana chuvoso, e provavelmente com ajuda das pulgas, acabou por encontrar-me mais uma vez.  Por fim, hospedados o cachorro e a velha, escolhi o meu.  Ah, o que sobrou – com janela maior, mobiliado com colchonete, cadeira de praia, mesa pra dois e vales para o banheiro da lanchonete da esquina – está para alugar. Aliás, se alguém se interessar, ou souber de alguém que possa ter interesse, favor discar 5550555 - sempre depois das 18h - horário de menor movimento, o que facilita ouvir o toque do orelhão aqui da frente.

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

Do café

Admirável advento o café. Bem serve para acordar,  aquecer dia frio,  complementar pesado almoço. Sim, extraordinário grão escuro. Bem cabe ao pretinho, para nós, íntimos, ainda servir de pretexto para reunião de amigos, ou quem sabe, vá lá, brindar um primeiro encontro com alguma esplêndida senhorita.  Sim, bem pode ele também ser companheiro de um livro em beira de grama, lareira, cama, qualquer lugar onde uma xícara consiga tomar bom equilíbrio. Claro que, quando do contrário, bem cabe também ao célebre líquido, por exemplo, brindar de forma intensa, completa, pobres e indefesos teclados, findando, subitamente, qualquer pretensão de mais palavras.

Segunda-feira, Setembro 13, 2010

Do flerte


 Correntes femininas já tentam mudar tais costumes, fato certamente benquisto pelo lado viril; todavia, culturamente falando, sempre coube ao homem a iniciativa do flerte: seu hábito mais instintivo, mais peculiar, mais sapeca, mais precioso, mais maldoso e, por vezes, até o mais perigoso: quando, de exemplo,  palavras erradas são colocadas, ou, noutras feitas, quando um galanteador mais ousado tenta arriscada paquera na pequena do próximo – ato já bem advertido no conhecido mandamento de outrora.  

 Flertar eterno. Reza lenda que a história toda começou com um primitivo macho que, de tacape em mãos, e pouca sutileza, puxando cabelos, tentava levar a moçoila da época em direção à sua caverna – à qual, em verdade, era pequena, mas, escurinha, e à luz de fogueira, trazia certo ar romântico e boa discrição.
   
Ao longo do tempo, o flertar e o romantismo sofreram inúmeras variações e, com melhor ciência da escrita e das notas musicais, tais procedimentos tomaram, aí sim, verdadeiros ares românticos: poemas, bilhetes, cartas, serenatas. E tais elementos talvez tenham sido ou ainda sejam os mais formosos.  Mas também aqui, com as melhores ou “piores” intenções, o homem objetivava levar a pequena até sua caverna – apartamento ou casa, digo.

Pois sim, desde muito flertamos as meninas de todos as épocas, de todos os lugares, ato bem experimentado e sempre ousado. Todavia, a revolução “flerteira”, se assim cabe proferir, surgiu mesmo com o advento da internet. E não penses tu, leitor virtual, que a figura que criou o primeiro MSN, ou o primeiro e-mail, o fez com fins lucrativos, empresariais ou algo do gênero. Não, de forma alguma. O tal, e lhes digo com a total certeza do mundo masculino, objetivava, sim, uma melhor comunicação com alguma paixonite da época. Não imaginava a figura, que faria a maior revolução da história em termos de relacionamentos, fazendo com que milhões de amantes virtuais buscassem hoje, num corriqueiro e prático xaveco eletrônico, sua sorte. Aliás, acaso alguma formosa leitora – de boa índole, e que aprecie o estudo das cavernas se interessar – favor deixar o contato logo abaixo.

Terça-feira, Agosto 03, 2010

Do roubo

Larápio, sacana, cafajeste – clamou algo assim, não recordo bem. E tudo porque lhe roubei beijo; assim, de súbito, como tal ato aparentemente deve ser feito. E somente o fiz por ser este o mais notório dos ósculos, ganhando de qualquer outro tipo do gênero. Por quê? Ora, porque todos os outros são consentidos, são liberados, como por obrigação já bem compreendida do relacionamento. Mas o roubado, bem se sabe, não; o roubado não é seu; e mais, faz-se mais peculiar e tentador porque é o único roubo bom. Desviando do trâmite burocrático intrínseco ao relacionamento, revela total bravura, tal certa e aceita loucura. Mas o furtado, embora proposto, entendido superficialmente como ato súbito, lhe exige um distinto e prévio pensamento, certo preparo. Pondera-se, deste modo, então, situação, nível de adrenalina, movimentos certeiros e tudo o mais. Porque se assim não for feito, tal furto não consegue sua veracidade plena: a realidade. Não, não sucede, fica somente no planejamento, memória, adágio, desejo. E esse tal ato se faz mais notório porque, embora furtivo, carecerá, ainda, de obrigatórios e planejados argumentos bem fundamentados; pois o praticante, o larápio, será de toda certeza pego, flagrado. E tais argumentos bem cabem ser singelos ou mais elaborados, ou os dois, mas que sempre devem tomar os ares convincentes; como assim ponderei, como assim lhe argumentei, como deste modo, para boa sorte minha, ela compreendeu.

Segunda-feira, Julho 19, 2010

Das brincadeiras

O guarda-chuva é, de boa certeza, uma bela traquinagem do Criador. Pois, em demasia, e sem dó algum, nos faz cair em extraordinárias peças.  Por certo, curioso objeto: ninguém pensa em comprá-lo quando o sol se tem; e ninguém costuma pagar o abusivo preço quando a água de repente vem.
E bem deve ser uma das brincadeiras favoritas do Pai. Este, lá de cima das nuvens, se cabe assim dizer, deve cair em copiosas risadas ao olhar as intrépidas aventuras de quem se refresca cá embaixo sem a mínima intenção. Ou por acaso já não passaste tu, leitor, por maus bocados quando teu suposto aparador de águas se abriu ao contrário numa ventania bem molhada, fazendo-o de tolo, bem em frente à pequena que até então pensavas flertar um dia? Ou noutra feita, então, não sofreste quando, subitamente, assim, quase ironicamente, este tal resolveu emperrar-se naquela repentina tempestade, lhe trazendo um infindável dilúvio?
“Usar somente por três vezes” devia vir ali escrito no cabo. Pois não, não se atrevem a perdurar mais do que isto. O meu, de arriscada atitude, ousei usar quatro. Arrebentou-se de imediato, fazendo com que aqueles malquistos e fraquinhos ferrinhos adentrassem o pano escuro sem piedade, desmanchando-se  sem prévio aviso.

Assim, ironicamente, adentrou-me também bela gripe. O guarda-chuva, sem muito remorso, ao lixo se foi. E, fruto dum permanente tempo bom que aqui faz, não me encorajo a comprar outro. Aliás, talvez, pruma próxima necessidade, já me vem à mente a idéia de adquirir, sim, uma reforçada e amarela capa de chuva, junto daquelas colegiais botas de borracha. Intuito, claro, de escapar também das poças – outra corriqueira brincadeira do Comandante do universo.