quarta-feira, janeiro 05, 2011

Do atraso


Atraso, leitor, atraso. Contudo, não o faço por má vontade, tampouco maldade, ou malandragem. Tardo fruto duma estranha conspiração universal que sempre me bate porta, a qual tu também já deves ter certa ciência. Aquela tal que costuma atacar as gentes que fielmente cumprem seus horários, assim, com todas as boas intenções.
Pois sim, e tal cabala costuma prestar visita sem prévio aviso: sapato que se esconde quando se está pra sair, chave que emperra na porta, camisa que repentinamente se rasga, lente de contato que some pelo chão, entendes? E, noutras vezes, quase absurdamente, é o ônibus que lhe ignora, um raivoso cão que lhe tranca caminho, um despertador que não apita. Sim, tu já deves ter passado por tais bocados, ou não?
Ainda há o cobertor que lhe segura, trânsito que subitamente emperra, rua que alaga, carteira que some,  até mesmo um vendedor que na hora da saída surge. Elementos que, de uma forma ou outra, guiados pela tal conspiração, acabam fazendo com que atrasemos nossas ações. Este texto, por exemplo, já deveria ter sido escrito há muito, sem atraso algum, mas tu nem imaginas o que me aconteceu...

segunda-feira, novembro 22, 2010

Das ilustres figuras da rede

Fruto do copioso sucesso das redes sociais, ilustres figuras também têm sido encontradas no meio virtual.  Recentemente, para surpresa geral, quem deu as caras, fazendo jus ao conhecido espírito avançado, foi o até então sumido Nostradamus.

 Ostentando um inusitado perfil na rede de relacionamentos Orkut, e em breves linhas, o cidadão expõe um pouco de suas características. “Sou um cara bacana, mas com a cabeça frequentemente distante. Penso muito no futuro, por vezes até em demasia”, pondera.

 Em suas comunidades, não menos curiosas, destacam-se elementos como “Yes, eu prevejo o futuro”, “Quem avisa amigo é”, e a popularíssima “Eu já sabia”. Parece que a figura passeia também pelo badalado Twitter, onde, com boa constância, costuma postar dicas sobre as loterias semanais.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Da falta de grana

 Pois ando tão desprovido de dinheiro que ando fazendo de tudo pra arranjar algum. Tempos atrás, precisei vender meu cachorro: vira-latas magrinho, que somente conseguia viver porque se alimentava das próprias pulgas. Com ajeitadinha ou outra, e usando artifícios de maquiagem aqui e ali, negociei-o passando-se por um suntuoso dálmata, noutra cidade, bem distante daqui, intuito de evitar futuras confusões quando dum primeiro banho. Infelizmente, a grana do cusco foi velozmente gasta num encontro que tive com uma simpática rapariga que esperava ônibus na esquina da rodoviária daquela cidade. Simpaticíssima, amabilíssima, caríssima.
 
Fruto daquele rápido amor repentino, obriguei-me a ir novamente atrás de grana – vendi minha avó. Fazendo uso da internet de um camarada, num acordo com a remota, que buscava novos ares, negociei-a num leilão virtual, dividindo o montante em partes iguais. Os cento e cinquenta anos da mocinha chamaram enorme atenção de um museu londrino, que ofertou razoavelmente bem para expor a raridade por lá. Todavia, o dinheiro da antiga também não perdurou muito. Deste modo, desfiz-me também do apartamento, que nem meu era. O dinheiro da venda, depois que consegui fugir do síndico e do dono, decidi aplicar em ações.

Minha primeira ação foi comprar comida, o que não via há muito. O resto foi investido em barracas - uma, na verdade. Não podia ficar na rua.  Barraca até bem espaçosa, quatro quartos, porque assim acabou sendo necessário. Para minha pouca fortuna, recebera carta da antiga dizendo não ter tido total apreço pelo clima londrino e que o museu achara mulher mais velha ainda para o seu acervo, o que nunca acreditei; e desde modo, retornando muito em breve, precisaria de morada.

Outro quarto, com vista para uma churrasqueira giratória, e para reparar a maldade inicial, reservei para o falso dálmata. O tal, coincidentemente ou não, depois de um final de semana chuvoso, e provavelmente com ajuda das pulgas, acabou por encontrar-me mais uma vez.  Por fim, hospedados o cachorro e a velha, escolhi o meu.  Ah, o que sobrou – com janela maior, mobiliado com colchonete, cadeira de praia, mesa pra dois e vales para o banheiro da lanchonete da esquina – está para alugar. Aliás, se alguém se interessar, ou souber de alguém que possa ter interesse, favor discar 5550555 - sempre depois das 18h - horário de menor movimento, o que facilita ouvir o toque do orelhão aqui da frente.